Jac Sanchotene é, desde 1995, captadora de projetos culturais que geram resultados diretos a seus investidores.

PAINEL

45º Festival de Cinema de Gramado

Minha “passada” por Gramado foi breve. Chegamos na tarde do sábado dia 19 a tempo de ver a homenagem ao meu querido amigo Otto Guerra,  e que linda homenagem!

Após a homenagem assistimos ao intrigante curta-metragem POSTERGADOS, de Carolina Markowicz e assistir ao incrível longa-metragem de Laís Bodanzky “Como Nossos Pais”, filme incrível generosamente humano! Imperdível!

Domingo dia de retornar a Porto Alegre, mas antes disso encontrar diversos amigos, entre eles/elas a minha queridíssima Betse de Paula que exibe amanhã o elogiado “Desarquivando Alice Gonzaga”.

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Alice Gonzaga e Betse de Paula

Grandes filmes, grandes pessoas…e queridos amigos, o Festival de Cinema de Gramado é principalmente isso. Que bom! Que venham mais festivais!

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Cleiton Thiele / PressPhoto

Dono do troféu Eduardo Abelin, Otto Guerra faz Gramado gargalhar

Homenagem à animação

A homenagem da noite deste sábado, 19 de agosto, no 45º Festival de Cinema de Gramado levou a plateia às gargalhadas. Dono de um humor ácido, que carrega para os filmes de animação que produz em seu estúdio, Otto Guerra recebeu o troféu Eduardo Abelin, “um pioneiro do cinema do Rio Grande do Sul”, como ele próprio mencionou.

“Eu tomei um conhaque e esqueci o que ia dizer. Mas estou muito feliz, aquela coisa toda que a gente diz nessa hora”, brincou, no palco do Palácio dos Festivais, para diversão do público.

Foi também com bom humor que definiu a homenagem recebida: “Minha mãe dizia para quem perguntava: ele faz uns bonequinhos. Ninguém entende muito bem o que é viver de desenho em Porto Alegre, no Brasil. Essa é a importância de Gramado, que mostra que isso existe e que é possível viver desse trabalho”.

Uma definição mais comportada do que a que havia dado na coletiva de imprensa, realizada durante a tarde no Mundo de Chocolate da Lugano. Lá, perguntado sobre o que significava a distinção, se saiu com a seguinte: “Sangue e morte. Quanto mais homenagem a gente recebe, mais a morte se aproxima”. Em seguida, remendou: “Brincadeira, gente… é uma honra receber essa homenagem em vida… em vida? Há controvérsias”.

Otto Guerra tem um vínculo profundo com o Festival de Cinema de Gramado. Seu primeiro curta-metragem autoral de animação, “O Natal do burrinho” foi o vencedor da Mostra Gaúcha de Curtas-metragem de 1984, na 13ª edição do evento. “Quando anunciaram o vencedor, saltei três metros de altura. A mostra de curtas, que continua até hoje, é uma janela fora do padrão que este festival mantém”, elogiou, recordando.

O filme, segundo o autor uma obra “careta”, feita “para ganhar dinheiro aproveitando o Natal”, não rendeu o retorno esperado: “Então decidimos criar um final surreal para apresentar em Gramado, foi uma loucura”. O troféu o aproximou do primeiro patrocinador, decisivo para que ele direcionasse então a carreira para o cinema de animação autoral, reduzindo o espaço para a publicidade.

O respeito que tem por Gramado faz com que até hoje todos os seus desenhos sejam lançados no festival. Muitos levaram Kikitos, como o recente “A vendedora de fósforos?”, eleito Melhor Filme entre os curtas brasileiros em 2014.

“Ao todo foram, sei lá, uns oito prêmios. Eu tenho Kikito de madeira, aquele grandão, e até um de borracha”, falou aos jornalistas – a última parte se revelou uma brincadeira também, segundos depois.

Otto parece não conseguir ficar cinco minutos sem fazer piada. “Tem poucos assuntos que eu gostaria de tratar de forma séria”, admitiu.

A produção do Festival de Gramado também fez graça na apresentação do prêmio, com Renata Boldrini – acompanhada nesta noite do jornalista Roger Lerina – lembrando que o talento de Otto se revelou quando aos 12 anos, recebeu, na escola, o prêmio de melhor cartão de dia das mães.

No filme montado especialmente para a ocasião, com depoimentos de amigos, depois de várias saudações engraçadas, a montagem terminou com um take da gata Betsi, olhando para a câmera, como a mandar saudações ao dono.

Foram várias declarações de admiração, como a do cartunista Adão Iturrusgarai: “A animação brasileira não seria a mesma sem Otto Guerra”. O companheiro de produtora que o acompanha na carreira nos últimos 40 anos, José Maia, afiançou: “Otto é a melhor pessoa para se ter ao lado na trincheira”.

Longa com desenhos de Laerte está quase pronto

Também companheira de trabalho por décadas, a ex-produtora Marta Machado revelou um fato inusitado em seu depoimento exibido no telão do Palácio dos Festivais: “Otto foi o cara que me fez virar ser produtora, e também quem me fez desistir de ser, vinte anos depois”.

Na coletiva de imprensa Otto também fez referência ao episódio. Ele e Marta viajavam a São Paulo para encontrar a cartunista Laerte, de quem estavam adaptando quadrinhos para o cinema. O projeto, que havia iniciado em 1993, tinha permanecido sem recursos por muito tempo, e quando surgiu financiamento, os tempos eram outros: “Nesse período o autor virou mulher e passou a renegar os personagens”, revelou o animador.

Otto queria então modificar o roteiro, mas a produtora temia perder o financiamento. No avião, ela ganhou a parada, mas ao sentarem com Laerte, Otto não resistiu, contou à artista sua vontade – e ela concordou. “A Marta se demitiu depois disso”, concluiu.

O projeto, entretanto, segue em produção e deverá ser lançado em 2018 com o título “A cidade dos piratas”: “No Festival de Cinema de Gramado, claro”.

A saída para utilizar os traços e os personagens originais, mas respeitar a nova relação entre autora e obra foi criar um falso documentário que contasse essa transformação de Laerte no filme. Até Otto ganhou um avatar animado para entrar em cena na obra. “Eu procuro tirar proveito das adversidades, eu conspiro a meu favor”, resumiu o cineasta.

O animador também fala sério

Otto Guerra também falou sério. No palco do Palácio dos Festivais fez um paralelo entre o período vivido pelo setor audiovisual depois da extinção da Embrafilmes, nos anos 90 – quando a produção nacional ficou paralisada – e o atual momento político brasileiro. “Estávamos no chão, mas naquele momento, a sociedade civil – nós, vocês – se uniu para juntar os cacos da Embrafilmes e disso nasceu a Ancine, que levou o Brasil a viver, no audiovisual, hoje seu melhor momento”, comparou.

“Vivemos um momento grave, por isso precisamos fazer as pazes, parar de brigar entre nós mesmos, porque todos queremos a mesma coisa”, conclamou, recebendo efusivos aplausos da plateia.

Na coletiva de imprensa, defendeu o direito de fazer humor politicamente incorreto justamente para provocar o debate sobre assuntos importantes na sociedade: “Temos que deixar os preconceitos do tamanho que eles tem. Se não abordamos determinados assuntos, nem os fascistas aparecem e nem incentivamos transformações na sociedade. A hipocresia deforma as pessoas”, analisou, referindo-se ao filme “Rocky & Hudson”, que retrata dois caubóis gays.

O debate foi provocado pela pergunta da professora de animação Ivonete Pinto, que relatou ter passado o filme para seus alunos e ter ouvido muitas críticas à abordagem proposta no curta. Lançado em 1994, seu humor se afasta dos padrões atuais de abordagem da homofobia.

Otto, por sua vez, lembrou que no lançamento do filme, em 1994, também no Festival de Cinema de Gramado, houve críticas exatamente pelo contrário: “A sessão foi bem complicada porque o filme apresentava dois caubóis amantes; e o pior, que também namoravam o cavalo”.

Nesse sentido, convidou a professora à reflexão: “Se os alunos saem da sala, tem que perguntar as razões. Contamos uma história com leveza, que não deve ser escondida”, defendeu.

Para concluir, definiu assim sua obra: “Meus filmes são piada, mas são filmes políticos. Não tem nenhum que não traga questões existenciais para o debate”.

Como Nossos Pais”, de Laís Bodanzky

A busca de Laís Bodanzky pelo mais simples do ser humano

A diretora Laís Bodanzky conhece a vida de seu público. Isso, no entanto, não se restringe ao fato de ela produzir filmes como As Melhores Coisas do MundoChega de Saudade e o célebre Bicho de Sete Cabeças, que falam justamente sobre pessoas comuns, “gente como a gente”. Na verdade, é o que a própria Bodanzky diz ouvir da plateia quando sai, por exemplo, de uma sessão de Como Nossos Pais, seu mais novo longa-metragem que fez estreia em território nacional no 45º Festival de Cinema de Gramado. “O encontro com o público validou e completou tudo o que eu pensava sobre esse trabalho. A maneira como as pessoas levantam questões vem no mesmo tom que o filme. Elas dizem ‘como você conhece a minha vida!’, quase como se estivessem em uma terapia”, conta a diretora.

Narrando o dia a dia de Rosa (Maria Ribeiro), uma mulher que busca ser perfeita em todas suas obrigações como profissional, mãe, filha, esposa e amante, Bodanzky lança novamente um olhar humano e contemporâneo para o tipo de história que marcou a sua trajetória até aqui. Mais do que isso, Como Nossos Pais vem da necessidade da diretora de falar sobre uma questão efervescente: a representação feminina, o que ela garante ter sido o “tema de redação” de seu longa já há muitos anos. Evocando a clássica música de Belchior eternizada na voz de Elis Regina, o universo feminino é visto pela cineasta sob a luz das relações familiares, especialmente das trocas promovidas entre diferentes gerações: “Eu queria falar sobre o que a gente pega e transforma de uma geração e entrega para a próxima, o que a gente ensina para nossos pais e sobre quando começa essa inversão de papeis”.

A mistura, claro, leva tons autobiográficos – e Bondazky diz que não poderia ser de outra maneira se tratando de cinema -, mas a provocação também deu uma importante tônica ao roteiro. “A mãe vivida pela Clarisse Abujamra é uma mulher da geração intelectual dos anos 1960, que viveu a contracultura com certa entrega e liberdade. Já Rosa, a filha, é careta. E isso acho bonito: ao mesmo tempo em que critica os pais, Rosa ganha de presente uma mãe que a ensina a ser muito mais libertária, muito mais livre, a correr riscos, transgredir. É no conflito que vem o aprendizado.”, reflete a diretora.

Antes de exibir Como Nossos Pais, seu primeiro longa-metragem em competição no Festival de Cinema de Gramado, Bondanzky só havia visitado o evento na década de 1990, quando exibiu o média-metragem Cine Mambembe – O Cinema Descobre o Brasil no Palácio dos Festivais em 1999. O retorno ao Festival traz muitas alegrias para a diretora, entre elas perceber como o evento se transformou ao longo dos anos. “Agora é outra coisa, até porque o próprio cinema brasileiro é outro. De qualquer forma, a curadoria é fina e me chamou muito a atenção porque reflete o cinema que vivemos hoje e porque está atenta a essa necessidade de fazer um contraste entre novos cineastas e nomes já consolidados”, avalia. O charme do evento também não passa despercebido por ela, que reforça a ideia de que o glamour característico do Festival aliado ao requinte cinematográfico trazido pela curadoria promove “um encontro atômico para o cinema brasileiro”.

Pela frente, Bodanzky tem como objetivo seguir na mesma linha de buscar a humanidade no lado mais simples do ser humano, mas, segundo ela, novamente com certa provocação: “Pedro” contará a história de Dom Pedro I, sob o viés de… Pedro, a pessoa. Não o Dom. É mais um capítulo a ser escrito em uma carreira que a diretora assume ser propositalmente sobre nós mesmos.

* matéria produzida originalmente para a assessoria de imprensa do 45º Festival de Cinema de Gramado

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