Cinema nacional fora do foco principal

. Por José Marcio Mendonça

A cultura brasileira perdeu o jeito, o gosto e a embocadura pelo debate público. A discussão sadia de idéias, conceitos, projetos, a única forma de inovar e renovar a arte sem que ela pereça de inanição. Fora algumas tertúlias acadêmicas, vezes tantas herméticas e fechadas em si mesmas quase sempre, vê-se à exaustão tão somente exibições de estrelismos, compadrios e trocas de picuinhas pessoais ou tribais. Estabelecemos uma cultura (aqui em outro sentido) de horror à crítica, numa espécie de “autoritarismo artístico”. E arte (e vida, sua outra face) sem conflitos, contraditórios e perturbações pode ser qualquer coisa menos arte (e vida). Cabe investigar as razões de tal fenômeno, se é apenas nosso ou está generalizando-se pelo planeta, visível sem necessidade de lupas e binóculos. Agora mesmo estamos assistindo o governo preparar, para ser realizado em menos de dois meses em Brasília, a II Conferência Nacional de Cultura de onde pretende extrair sugestões para a elaboração do novo Plano Nacional de Cultura sem que se vejam movimentos nas ditas classes culturais para apresentar teses, sugestões, influenciar os debates. Do mesmo modo, já está no Congresso Nacional, com propósitos de ser votado ainda neste primeiro semestre, o anteprojeto do Ministério da Cultura com as modificações da Lei Rouanet. No máximo, despertou queixas a respeito da forma como será administrado o Fundo Nacional de Cultura e a respeito do fim do financiamento total dos projetos com isenção fiscal. A proposta do governo tem muito mais do que isto. Depois do ato consumado, que ninguém venha se queixar. Por isso, não surpreende que um artigo do cineasta Domingos de Oliveira, de (“Uma nova receita para o cinema brasileiro”, “O Globo” 27/1/2010) tenha sido quase totalmente ignorado nos meios cinematográficos e culturais de um modo geral. Domingos faz uma crítica bem contundente da atual Lei Rouanet, “cujo resultado pífio os números demonstram”. E mais: “Apesar da imensa simpatia que nutro pela figura vital de máscula do nosso atual ministro, ele luta em uma linha que a prática demonstrou ser fracassada, já que nenhum filme brasileiro realmente se paga”. Provocativamente, o diretor de “Todas as mulheres do mundo” propõe que se dê mais atenção à arte e aos filmes de arte no Brasil, “que é aquilo que lembra os homens de seus melhores valores. A honra, o amor, a dignidade, etc.” Sugere até a criação de um Ministério da Arte. Domingos classifica o seu texto de um manifesto, portanto, emocional. E realmente ele o é. Se Domingos está certo, é uma história que precisa ser melhor contada. Mas chama para o debate, põe as luvas e sobe no ringue. E os sparrings não aparecem. O artigo mereceu apenas, na imprensa nacional de mais peso, um artigo na mesma linha dos também cineastas José Joffilly, Lucia Murat e Murilo Salles. Eles concordam com a afirmação de Domingos (e quem haveria de negar?) que não existe de fato uma indústria cinematográfica no Brasil, nos padrões de Hollywood e também do Japão, da Índia. E repetem a queixa de que o cinema de qualidade, de “obras mais autorais” não encontra guarida. Dinheiro há para outros tipos de filme, dizem eles, arremessados “numa mentira chamada ‘mercado’”. Até agora ninguém rebateu, nenhuma divergência, nenhum contraditório. Uma madorra total, uma acomodação sem limites. Às discussões, à liça senhores. Ou senão o cinema no Brasil – seja indústria, seja arte, seja as duas coisas juntas – vai continuar uma eterna e irrealizada promessa, com algumas obras-primas a dar-lhe alguma tintura.

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