Guerra de imagens chega ao Brasil

A seguir reproduzo texto do crítico e diretor de cinema Ricardo Calil.  Impossível ficar indiferente a situação que chegou a violência no Rio de Janeiro. Torço, para que em tempo muito breve, a situação  esteja mais tranquila.

O Brasil não é um país pacífico. Mas é um país que não tem uma grande tradição de guerras – pelo menos não ao longo do século 20, o século da informação. Portanto, é um país que chega atrasado a um ponto crucial de qualquer conflito armado a partir desse período: a guerra de imagens.

A cobertura de TV sobre a violência no Rio mostra que chegamos tarde, mas chegamos lá. A história do confronto entre policiais e traficantes cariocas virou não apenas uma guerra por território, não apenas uma guerra às drogas ou de armamento. Mas também – e talvez, pela primeira vez, sobretudo – uma guerra de imagens.

Hitler sabia da importância das imagens para a guerra já nos anos 30 do século passado. Os Estados Unidos também. Nós descobrimos agora. Talvez porque antes não houvesse oferta de imagens – já que as locações estavam controladas pelo “inimigo”.

Desta vez, as imagens vieram com fartura: ônibus queimados, tanques e helicópteros cercando favelas e – gran finale – traficantes em fuga. Mais importante: a sucessão de fatos permitiu a construção de uma narrativa clássica. A marcha para a vitória. O triunfo da vontade.

E, no meio do fogo cruzado, as emissoras de TV – em particular, a Globo – escolheram um lado. Sua função não era informar ou analisar. Sua função era modelar ou reforçar a narrativa triunfalista da vitória – afastando do caminho qualquer possibilidade de dissenso. Em outras palavras, fazer propaganda de guerra.

No caso, o modelo da propaganda não é o hitleriano, em que a produção é controlada pelo Estado. Mas sim o americano, em que governo e meio de comunicação se alinham temporariamente por uma conjugação de fatores e interesses.

Como ocorreu com Roosevelt e Hollywood durante a Segunda Guerra. Ou com Bush filho e Fox News na guerra do Afeganistão e do Iraque. Ou com Sergio Cabral e Globo no conflito carioca.

Depois do ensaio da campanha eleitoral, a Globo parece ter assumido de vez o lado Fox News – só, que desta vez, com viés governista.

Entre outras coisas, isso significa determinar a vitória de seu lado na guerra – porque é isso que toda narrativa clássica demanda. E a imagem dos traficantes em fuga veio bem a calhar.

O problema é o tempo da ficção, mesmo o da jornalística, nem sempre corresponde ao dos fatos. E o final e edição do “Jornal Nacional” não corresponde ao final do problema de segurança no Rio.

Nas discussões sobre a guerra carioca na internet, nenhum filme foi mais citado do que “Tropa de Elite”. A piada mais recorrente é que estamos vendo ao terceiro episódio da série, em tempo real.

Mas o conflito me lembra mais “A Conquista da Honra” (2006), de Clint Eastwood. Nele, um grupo de soldados hasteia a bandeira americana em Iwo Jima, arquipélago do Pacífico controlado pelos japoneses durante a Segunda Guerra.

O momento foi reencenado para uma fotografia que se tornou a imagem símbolo da vitória americana sobre os japoneses. Só que a batalha de Iwo Jima estava apenas começando – e ainda causaria milhares de baixas no exército americano. Muitos meses se passaram até que a realidade fizesse jus à imagem.

Na época de seu lançamento, “A Conquista da Honra” foi comparado desfavoravelmente a “Cartas de Iwo Jima”, em que Eastwood mostrava o combate pelo lado japonês.

A meu ver, “A Conquista da Honra” era um filme superior, uma obra-prima subestimada. A maioria da crítica e dos espectadores parece ter preferido o clássico “Cartas de Iwo Jima”, em que a imagem vale o que aparenta.

Já “A Conquista da Honra” é um filme moderno justamente por colocar a idéia de que uma imagem obrigatoriamente correga consigo uma verdade. Vale a pena ver de novo o filme agora que a guerra das imagens chegou ao Brasil.

Mas há algo mais importante: a leitura do artigo do sociólogo Luiz Eduardo Soares sobre a crise no Rio.

Autor: ricardo calil

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