Entre lanternas mágicas e cinematógrafos – Historia da Exibição Cinematográfica em Porto Alegre

cinematrografo

Por Alice Dubina Trusz*

Este livro apresenta um estudo histórico que prioriza a primeira década da exibição cinematográfica em Porto Alegre, embora a ultrapasse tanto da perspectiva temporal quanto temática, contemplando os espetáculos de projeções ópticas realizados na cidade entre 1861 e 1908. O interesse central e inicial da investigação foi identificar as formas de exploração comercial do cinema como atração pública entre 1896 e 1908, de modo a compreender como se constituiu o espetáculo cinematográfico no contexto local. Estas datas assinalam, respectivamente, a apresentação do cinematógrafo aos porto-alegrenses e a abertura das primeiras salas especializadas e permanentes de exibição da cidade. O período que transcorreu entre os dois acontecimentos foi denominado nos estudos locais sobre a história do cinema como fase da exibição itinerante e caracterizou-se pela descontinuidade, irregularidade e diversidade da oferta do cinema.

Em função de tais aspectos e da supervalorização do período posterior, da sedentarização, quando as transformações internas da indústria cinematográfica e dos filmes permitiram a consolidação do cinema como atividade econômica e a legitimação artística dos seus produtos, devotou-se a esta primeira década de sua história um grande desinteresse. Se o período não foi completamente ignorado, tem sido resumido em poucas linhas como aquele durante o qual o cinema não teria passado de uma atração de circos ambulantes e feiras temporárias e por isso sem importância. Quando muito, são citadas algumas datas, nomes de aparelhos e exibidores, um dos quais mereceu especial destaque porque produziu filmes sobre eventos locais numa fase marcada por irrisórias manifestações do gênero. A ênfase na produção, aliás, é um dos fatores que explica o desprezo pelo período e pela historia da exibição cinematográfica não somente em Porto Alegre, mas no Brasil como um todo e ainda hoje.

Profundamente impregnados das tendências historiográficas suas contemporâneas, enraizadas numa abordagem tecnológica e evolucionista do cinema, os primeiros pesquisadores locais, apaixonados e esforçados diletantes, perceberam como revolucionária a chegada do cinematógrafo a Porto Alegre, priorizando os nomes dos primeiros exibidores e as datas das suas estreias. Debatendo-se nas tentativas de especificar quem chegou primeiro, de onde veio e que aparelho trouxe, reproduziram no âmbito local uma versão da disputa pelo pioneirismo que caracterizou a datada discussão mundial sobre se o cinema teria sido inventado pelos irmãos Lumière ou por Thomas Edison. Como se sabe, a invenção do cinema resultou de um longo processo de sucessivas e simultâneas pesquisas desenvolvidas por cientistas e inventores em diferentes países do mundo, sobretudo nos Estados Unidos, França, Alemanha e Inglaterra.

A mesma influência da historiografia tradicional do cinema, que desvalorizou o período anterior à sedentarização da exibição e narrativização dos filmes, provocou o desinteresse destes pesquisadores pelo seu estudo e levou à percepção das salas especializadas permanentes como expressões de um feliz sinal de progresso a encerrar uma fase pouco ou nada representativa para a história do cinema enquanto fenômeno sócio-cultural.

É verdade que entre 1896 e 1908 a exibição cinematográfica foi realizada em Porto Alegre por exibidores itinerantes e por temporada. Porém, este era o modo de funcionamento do setor das diversões públicas local na época. Era assim que eram apresentados todos os outros gêneros de diversões, do teatro lírico e dramático às touradas, passando pelo circo e pelos concertos musicais. No entanto, vinculou-se à qualidade da exibição cinematográfica empreendida no período uma ideia de caos e ao cinema como espetáculo um caráter impuro e/ou indefinido.

Tais percepções de cunho pejorativo pecam pelo anacronismo, justamente porque desconhecem ou desconsideram a história e a especificidade cultural daquele contexto. O fato é que esta interpretação sem base factual acabou por endossar a concepção de que durante a fase da exibição itinerante a presença dos exibidores cinematográficos na cidade teria sido tão episódica e as projeções cinematográficas teriam estado tão  confundidas com outros gêneros de diversões que mal se poderia chamar o cinema de cinema ou considerar que este tivesse envolvido um público particularmente afeito às projeções. As salas sim teriam dado condições para a constituição do espetáculo cinematográfico e para a formação do seu público espectador.

Sem dúvida, o cinema naquela época não era como o conhecemos, mas, ao contrário do que transparece na bibliografia “especializada”, o período foi marcado por uma intensa atividade exibidora e um crescente envolvimento do público com o cinema. Tanto pela experiência acumulada pelos exibidores na sua prática profissional e empresarial quanto pelo público apreciador do novo gênero de imagens que aqueles atraíram e conquistaram, a fase da exibição itinerante foi a responsável pela criação das condições que permitiram a própria abertura das salas especializadas permanentes a partir de 1908. Este segundo “evento”, da mesma forma, ganha um outro significado quando confrontado com o fato de que também foram abertos estabelecimentos do gênero em Porto Alegre durante a fase da exibição itinerante, os quais funcionavam segundo o mesmo padrão. A diferença inicial mais evidente entre as salas especializadas anteriores e posteriores a 1908 é que as primeiras tinham duração temporária e as segundas foram abertas com pretensão de longa duração.

O cinema surgiu como uma nova tecnologia de percepção, reprodução e representação e se tornaria uma mercadoria cultural de produção e consumo de massa. Ao longo deste processo, ele também se constituiu em um novo espaço de congregação social na esfera pública, o que ocorreu simultaneamente a sua caracterização e afirmação como novo gênero espetacular. O lançamento do cinematógrafo no mercado do entretenimento mundial como uma nova modalidade de projeção óptica não determinou, no entanto, uma única e definitiva forma de sua exploração comercial.

Os estudos produzidos a partir dos anos de 1980 sobre os filmes e práticas culturais característicos da primeira década do cinema têm demonstrado a complexidade das relações da nova atração com as práticas espetaculares suas contemporâneas, tanto relativas às diversões ópticas quanto aos demais gêneros de espetáculo. Ao longo do período, as projeções cinematográficas foram apresentadas mundialmente sob diferentes modalidades de exibição, impedindo que se fale em “sessão de cinema” conforme a conhecemos hoje.

Afinal, os espetáculos podiam até ser exclusivamente de projeções cinematográficas, mas raramente se restringiam a um único padrão, que reunisse os mesmos elementos constituintes, visuais e sonoros. Essa heterogeneidade da oferta também facultou um acesso diversificado do público ao cinema e abriu variadas possibilidades de sua apropriação pelos espectadores, conferindo uma dinâmica ímpar ao processo de afirmação do cinema como novo gênero espetacular e prática cultural, em torno da qual se reuniria um público identificado por novas afinidades e expectativas.

A primeira demonstração pública e paga do aparelho de projeção criado pelos irmãos Lumière para um coletivo de espectadores, realizada em dezembro de 1895 no Grand Café, em Paris, foi considerada, enquanto espetáculo de projeções, um marco na história do cinema. No entanto, este evento não representou o primeiro espetáculo público de projeções cinematográficas realizado naquele ano e menos ainda a primeira oportunidade que o grande público teve de conhecer as imagens do gênero, disponíveis desde 1894 nos quinetoscópios de observação individual de Edison.

De um modo geral, o espetáculo cinematográfico é fundamentalmente descrito como uma projeção de imagens em movimento que acontece em uma sala escura, reunindo um coletivo de espectadores que pagam ingresso para assistir ao que lhes é mostrado. A projeção é realizada por meio de um aparelho óptico-mecânico, o qual projeta imagens ampliadas em uma tela situada a certa distância e à frente do público através de uma fonte de luz artificial.

Ocorre que estudos relativamente recentes sobre as práticas culturais que caracterizaram as formas de entretenimento visual anteriores ao surgimento do cinematógrafo demonstraram que espetáculos de projeções conforme o descrito não só existiam como eram prática corrente e largamente apreciada no período. Diferentemente, aqueles espetáculos faziam uso de aparelhos projetores do gênero lanterna mágica e exibiam imagens na sua maioria estáticas. Estas vistas se distinguiam daquelas “animadas” não somente por serem “fixas”, mas principalmente por seu intenso colorido.

As lanternas mágicas e suas imagens também fizeram sucesso em Porto Alegre na segunda metade do século XIX, colocando os espetáculos de projeções luminosas entre as opções locais de entretenimento, juntamente com o teatro, o circo, os concertos e as touradas. Desde 1861, ao menos, sucessivas gerações, de diferentes faixas etárias, conheceram e apreciaram práticas e técnicas relacionadas com as experimentações, invenções e diversões ópticas que caracterizaram a experiência europeia entre os séculos XVII e XIX. Nos espetáculos de projeções luminosas, os espectadores viram e ouviram histórias e se deliciaram com a beleza e o colorido das imagens, às vezes abstratas, produzidas para maravilhar os sentidos, mas também conheceram acervos artísticos e pontos turísticos das principais cidades europeias, ampliando os seus horizontes informativos e culturais e a sua memória visual.

Assim, é possível afirmar tranquilamente que não foi o cinema que forneceu os primeiros passaportes para que as pessoas pudessem “viajar sem sair do lugar”. A tradição lanternista que o antecedeu, com seus aparelhos, imagens e práticas correlatas teve importância fundamental no estreitamento da relação dos contemporâneos com as imagens técnicas e na sua formação como espectadores de espetáculos de projeções.

O cinema surgiu e se expandiu pelo mundo no contexto desta complexa e rica cultura visual que vinha sendo construída e dinamizada por um grande fascínio pelos jogos, truques e aparelhos mecânicos desenvolvidos em torno das possibilidades de iludir o olho. Como tal, ele foi uma nova expressão de uma tendência de consumo que dominou o século anterior; foi um novo expoente da adaptação das descobertas científicas para fins de entretenimento. Segundo Tom Gunning (1996), o cinema continuou a valorizar uma série de efeitos ilusórios cujo intuito era criar maravilhamento a partir de imagens que explorassem o desconhecido.

O próprio movimento das imagens cinematográficas, uma sucessão de fotografias descontínuas, já era uma expressão desse poder. Por outro lado, os primeiros filmes também foram apreciados pelos interessados nas invenções do prolífero final do século XIX como produtos de uma nova técnica de captação e reprodução de imagens, a qual proporcionava uma nova experiência sensível de natureza visual e portanto de expressão e apropriação da realidade.

O interesse em investigar o processo de constituição do cinema como espetáculo e a necessidade de conhecer o contexto cultural da efetivação desta dinâmica, visando identificar as suas especificidades locais, os seus elementos formadores e as relações entre eles estabelecidas, determinaram o recuo da pesquisa à segunda metade do século XIX. Nesse sentido, buscou-se identificar as práticas culturais que caracterizaram as formas de entretenimento visual anteriores ao surgimento do cinematógrafo, especialmente aquelas relativas aos espetáculos públicos de projeções de lanterna mágica.

Através dos novos conhecimentos sobre estes dois períodos e processos culturais ignorados e/ou desprezados pela historiografia local, anterior ao lançamento do cinematógrafo e correspondente à primeira década de sua exploração, pretendeu-se colocar em discussão as implicações destes vazios investigativos para a construção da história do cinema em Porto Alegre. Objetivou-se, sobretudo, restituir a riqueza e a dinâmica que caracterizaram a primeira década da exibição do cinema e que foram responsáveis não somente pela sua constituição e afirmação como manifestação cultural, mas também pelo incremento do setor do entretenimento local e pela estimulação de novas formas de apreensão e expressão da realidade, cada vez mais mediadas pela técnica e pautadas nas imagens.

A abordagem aqui proposta é decorrente do novo perfil alcançado pelos estudos históricos sobre a cultura e o cinema, conquistado pela história cultural francesa e pelos cultural studies norte-americanos. Essas pesquisas caracterizaram-se pela diversidade de objetos e enfoque transdisciplinar, com ênfase para o sócio-histórico, sendo permeadas por uma preocupação de natureza estética. Produzidas a partir do final dos anos 1970 por historiadores de diferentes países da Europa, Estados Unidos e Canadá, uma boa parte delas partiu de novos corpos documentais, os quais foram examinados a partir de uma preocupação teórica e metodológica, determinando o questionamento dos pressupostos da historiografia tradicional do cinema e estabelecendo novas perspectivas de análise.

*Trecho de introdução do livro de Alice Dubina Trusz, selecionado no Prêmio SAV para Publicação de Pesquisa em Cinema e Audiovisual (2009-2010).


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