Festival de Cinema de Berlim

Pescado do site do Ricardo Orlandini

Festival de Cinema de Berlim traz diversidade nas mostras paralelas

Para além da mostra competitiva e dos cobiçados Ursos, as seções paralelas do Festival de Cinema de Berlim exibem grandes filmes, dirigidos por cineastas dos mais diversos lugares do mundo. Uma garantia de diversidade.

Falar de um “destaque” em um festival como o de Berlim seria, com todo o respeito, um nonsense absoluto. “Mudanças e rupturas na sociedade” é o lema da edição deste ano. Pelo menos esta foi a forma encontrada pelo diretor do festival, Dieter Kosslick, para caracterizar a atual Berlinale, como o festival é conhecido dentro da Alemanha. A descrição, todavia, teria se adequado também a qualquer um dos anos anteriores do festival.

Com 400 estreias, é sempre possível encontrar dezenas de filmes que tratam de rupturas sociais. E se as rupturas pessoais forem também vendidas como tema de muitos filmes, a procura compulsória de um lema para o festival de 2012 vai parecer ainda mais uma farsa. Afinal, que filmes, então, não tratam de rupturas?

Abdicando de grandes nomes: chance e risco

Afinal, mais importante que ficar procurando um lema para um festival tão grande e amplo como o de Berlim é a qualidade das obras exibidas. Algo que só poderá ser comprovado depois das sessões. No ano passado, o diretor Kosslick e sua equipe foram duramente criticados pela baixa qualidade de vários longas da mostra competitiva.

De forma que a curiosidade a respeito dos filmes que participam este ano da competição pelos Ursos de Ouro e Prata é grande. Entre os nomes já anunciados quase não há grandes e famosos diretores, já que estes costumam priorizar o festival de Cannes, que acontece durante o verão europeu. E as produções hollywoodianas também passaram a ser mais raras em Berlim. Do ponto de vista mercadológico, exibir filmes produzidos em Hollywood no festival de Berlim não é necessário, podendo ser até mesmo prejudicial.

Mas tudo isso não precisa ser visto como uma desvantagem para o festival, que acontece a partir desta quinta-feira (9/02) e vai até o dia 19 deste mês. Nomes que estreiam na direção, cineastas desconhecidos, países que raramente produzem filmes – tudo isso pode ser um ponto positivo. Quando os filmes são bons, obviamente.

Neste ano, a mostra principal (competitiva) conta com 23 contribuições, cinco das quais fora de concorrência. A presença do cinema alemão é forte, com filmes de renomados diretores de uma geração “intermediária”, como Hans-Christian Schmid, Matthias Glasner e Christian Petzold, cujos trabalhos mais recentes participam da competição. São três histórias sobre situações de agonia e conflitos em família ou em relacionamentos.

Além dos três, há ainda na programação outras coproduções internacionais, ou seja, filmes feitos com parte dos recursos vindos da Alemanha. Uma tendência que vem sendo observada nos últimos anos: a globalização exige maior cooperação entre produtores de diversos países, fazendo com que o conceito de cinematografia nacional vá se esmaecendo cada vez mais.

Forte presença europeia

O cinema europeu está bem representado na mostra competitiva deste ano, com filmes da França, Itália, Portugal, Espanha, Dinamarca, Grécia e Hungria. O ciclo será aberto com o francês Les Adieux à la reine, que trata da vida na corte durante a Revolução Francesa de 1789.

Por outro lado, a ambição do festival berlinense de ser uma vitrine do cinema do Leste Europeu parece ter sido deixada de lado já há alguns anos. Na mostra competitiva, por exemplo, não há um filme sequer da Rússia. A China participa com três contribuições, duas das quais prometem: White Deer Plain é um filme épico, de três horas, sobre a história milenar da China, sob a direção de Wang Quan’an – um cineasta que levou, há cinco anos, o Urso de Ouro para casa.

The Flowers of War (fora de concorrência), do mestre chinês Zhang Yimou, produzido com dinheiro norte-americano, trata do massacre dos japoneses em Nanquim, no ano de 1937. O filme já foi exibido na China, tendo sido acusado pela imprensa ocidental de apresentar um viés nacionalista da história. Contribuições das Filipinas e da Indonésia completam o “destaque asiático” da mostra competitiva. Da África, habitualmente pouco representada nos grandes festivais, há desta vez um longa do Senegal concorrendo às premiações.

Os EUA mantêm-se, por razões já conhecidas, distante da competição em Berlim, com apenas um filme concorrendo: Jayne Mansfield’s Car, no qual o diretor e ator Billy Bob Thornton conta um drama familiar nos EUA do fim dos anos 1960.

Mas mesmo sem filmes norte-americanos na competição, o festival de Berlim não abdica das estrelas de Hollywood. Em ciclos especiais para além da mostra competitiva, serão exibidos alguns filmes hollywoodianos. Produtores e atores usam o festival de Berlim, neste caso, como trampolim para a estreia dos respectivos filmes em cinemas comerciais. Estão sendo esperados na cidade o jovem Robert Pattinson (estrela de Crepúsculo), Christian Bale, Uma Thurman, Michael Fassbender e Keanu Reeves.

E, é claro, Angelina Jolie, que apresenta seu primeiro filme como diretora: In the Land of Blood and Honey, um drama sombrio e sem final feliz, rodado na Bósnia. Os astros de Hollywood deverão ser talvez ofuscados pelo ator indiano Shah Rukh Khan, conhecido por abalar os corações das mulheres. Ele estará pela terceira vez em Berlim e deverá possivelmente atrair um número considerável de fãs.

Fórum e Panorama: cinema político

A Berlinale, contudo, não é um dos maiores festivais do mundo por causa da corrida aos Ursos. O que costuma fazer a diferença são as mostras paralelas Fórum e Panorama, que exibem raros filmes de países cuja produção não é muito conhecida, dando espaço para estéticas experimentais, documentários e principalmente para um cinema politicamente engajado.

Além disso, o festival de Berlim conta ainda com uma seção dedicada à história da sétima arte: a Retrospectiva, voltada este ano para um estúdio russo-alemão. O ciclo Cinema Culinário, o Talent Campus e uma homenagem especial à atriz norte-americana Meryl Streep completam a programação, junto de uma seção de comemoração dos 100 anos dos estúdios Babelsberg e de dois ciclos inteiramente dedicados ao novo cinema alemão.

Em meio a tantas seções, ninguém mais consegue ter uma visão geral sobre todos os filmes exibidos e eventos paralelos. É preciso concentrar-se e limitar os interesses. Alguns espectadores de longa data do festival criticam exatamente esse excesso de ofertas, que foi ficando cada vez mais difícil de ser apreendido nos últimos anos.

Mas o diretor Dieter Kosslick alerta – com razão – para a necessidade de atrair o grande público. Quando a maioria das exibições de um festival tem suas entradas esgotadas, então não pode haver nada de tão errado assim, defendem-se os organizadores. Nos últimos anos, o Festival de Berlim atraiu nada menos que 300 mil espectadores. O mesmo deverá acontecer neste ano. Uma boa expectativa para aquele que é o maior festival de cinema do mundo em termos de volume de público. Num contexto como este, ninguém mais se lembra do artificialismo do lema escolhido para o festival.

Autor: Jochen Kürten (sv)
Revisão: Carlos Albuquerque

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